Autismo: é possível sair do espectro?

Autismo: é possível sair do espectro?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é (e sempre foi) considerado uma condição “para toda a vida”. Em outras palavras, ele não possui cura, mas sim tratamentos que variam de acordo com as necessidades de cada paciente.

Isso acontece porque o autismo, apesar de ser sempre caracterizado por dois distúrbios principais (de comunicação e comportamento), é considerado um espectro. Isso significa, basicamente, que ele abrange uma série de sinais, sintomas e comorbidades diferentes que, por sua vez, apresentam níveis e intensidades distintas para cada paciente.

Sendo assim, a melhor forma de se tratar o TEA é reunir uma série de terapias e intervenções, focadas neste espectro, que visam trazer mais independência ao autista e, claro, desenvolver/estimular suas habilidades e integrá-lo socialmente.

A boa notícia, no entanto, vem agora: durante as últimas décadas, a hipótese de que uma pessoa poderia sair deste espectro vêm sido cada vez mais considerada pela comunidade científica. Para se ter ideia, há evidências de que, quando diagnosticados precocemente e tratados corretamente, 3 a 25% dos pequenos com TEA conseguem desenvolver praticamente 100% das habilidades comprometidas pelo transtorno.

Como assim “sair do espectro do autismo”?

Um dos estudos mais famosos que talvez tenha iniciado essa discussão sobre uma potencial “recuperação do autismo” foi conduzido em 1987 pelo psicólogo Ole Ivar Lovaas.

Nele, o pesquisador relatou que metade das crianças analisadas que foram tratadas por, pelo menos, 40 horas semanais com Terapia de Análise Comportamental Aplicada (ABA), tornaram-se “indistinguíveis” de outras crianças no momento em que terminaram a primeira série.

Vale ressaltar, no entanto, que tal afirmação de Lovaas era (e ainda é) bastante delicada. Afinal, existem outros tipos de terapias que melhoram o prognóstico de uma criança com TEA e, bem… reduzir todo o processo de “regressão” de um espectro somente à ABA é simplesmente perigoso. Além disso, foram encontradas algumas “falhas” na execução deste estudo que, por ora, não precisam ser discutidas.

A luz no fim do túnel?

Foi só após a publicação de um estudo, liderado pela psicóloga Deborah Fein em 2013, que a comunidade científica começou a considerar seriamente a possibilidade de “recuperação” do autismo.

A breve história desse estudo é a seguinte: ao longo de sua carreira, Fein observava que alguns de seus pacientes, ao longo do tratamento, apresentavam progressos surpreendentes. De acordo com ela, existiam casos em que a criança nem sequer atendia aos principais critérios diagnósticos para TEA.

Sendo assim, em 2009, ela começou a documentar meticulosamente estes casos, selecionando 34 jovens de 8 a 21 anos que haviam alcançado o que ela e seus colegas consideravam o “resultado ideal”, ou seja, a regressão do espectro.

Para serem incluídas neste grupo, as crianças deveriam ter tido um diagnóstico de autismo precocemente verificado e, após os tratamentos, não apresentavam nenhum sintoma de TEA remanescente.

Durante o estudo, esses pacientes foram testados em diversas áreas diferentes, como comunicação, socialização, leitura, linguagem etc. Além disso, foram comparados a 2 outros grupos, um com 44 participantes que têm autismo, e outro com 34 indivíduos com desenvolvimento típico.

Ao final de todo o processo, a pesquisadora se deparou com um resultado otimista: o grupo de crianças que havia “saído do espectro”, apesar de ligeiramente mais desajeitadas socialmente, não se distinguiam daquelas que nunca tiveram TEA. E o mais legal? No grupo que “se recuperou do transtorno”, não foram encontrados déficits de funções executivas (como no controle de impulsos e reações emocionais, no foco entre atividades e no planejamento/organização).

Então, como sair do espectro do autismo?

Por mais otimistas que os estudos de Fein possam ter sido para a comunidade autista, é importante ressaltar que ainda não se sabe o que exatamente havia mudado para que essas crianças tivessem superado o diagnóstico de TEA. Tudo indica, no entanto, que o acesso precoce ao tratamento pode ter algo a ver com essa mudança.

Além disso, outras pesquisas sugerem que as pessoas que “perdem” o diagnóstico de autismo com mais frequência são aquelas que:

Contudo, vale ressaltar que até mesmo os próprios membros da comunidade autista se opõem à noção de que esse distúrbio pode ser “deixar para trás”. Além disso, é importante saber que na maioria, senão em todos os casos, as pessoas não “perderam o autismo”, mas sim aprenderam os mecanismos de enfrentamento que lhes permitem “simular uma persona não autista”. No entanto, segundo relatos desses pacientes, tais mecanismos são causadores de angústia e até ansiedade por terem que “ lutar” contra o que eles são.

O importante, aqui, é seguir com os tratamentos da melhor forma possível e entender que o TEA é um detalhe intrínseco da vida de uma criança que o tem, e que isso não é um problema, ou motivo para vergonha. Tudo, na verdade, é uma questão de adaptação!

No mais, continue navegando pelo nosso blog para saber mais novidades sobre os tratamentos para o autismo e, claro, entender o máximo possível sobre esse distúrbio!

Cuidem-se, e até a próxima!